sábado, 14 de março de 2009

Capítulo 1 - Fogo e Trevas I

Naga rastejou como uma cobra pela sala empoeirada, cabeça colada ao chão, braços e pernas deslizantes contra a pedra gelada. Acomodou-se atrás de uma coluna tombada, e havia muitas naquela câmara subterrânea. Cauteloso, ergueu o corpo e observou o lugar.

Vazio, pensou. Nada além de entulhos: restos de armas, esqueletos e pedaços de rocha remascentes de um combate acontecido ali há muito tempo. O aposento, amplo como as salas de jantar dos castelos, estava iluminado apenas por um feixe de luz que entrava pelo teto, indicando que ainda era dia no mundo exterior.

Convencido de que não havia nenhum perigo iminente, o arqueiro se levantou, desenhando uma silhueta negra contra a parede. Por precaução, pôs uma seta no arco. Em seguida, assoviou duas vezes, imitando o ruído de um rato, e seus companheiros finalmente ingressaram na câmara.

Quem vinha primeiro era Ares, segurando sua enorme espada de duas mãos. Era um cavaleiro, mas estava a pé, e trajava uma armadura de placas de metal, com o visor do elmo levantado. Alana, a feiticeira, caminhava logo depois, seguida pelo bruxo Zamir, com suas vestes negras e cajado de marfim escuro. Na retaguarda apareceu Grammal, o semi-orc, um guerreiro bárbaro meio gente, meio orc, que tinha a força de três homens e carregava um pesado machado duplo, com lâminas-irmãs nas duas extremidades.

- Está limpo – disse Naga, tirando sua espada curvada e a usando para cutucar o chão – Eles devem ter morrido há pelo menos cem anos – mostrou os cadáveres em frangalhos, espalhados por todo o aposento.

- Eu não gosto deste lugar – resmungou Zamir. Era jovem, de pele branca e cabelos escuros, mas sua vivência dava àquelas palavras um ar veterano.

- Não é o único – disse Ares – Existe uma presença maligna aqui. Eu posso sentir.

- Acho que seria melhor então vasculharmos a escuridão – sugeriu Alana, e começou a recitar um feitiço – Ast kabar alux gander suamar – falou, e da palma da mão nasceu uma esfera de luz, que brilhava com a intensidade de uma tocha.Usando suas capacidades mágicas, a moça guiou a esfera telepaticamente, iluminando, uma a uma, todas as alcovas e partes obscuras.

- O que me incomoda não é a escuridão, mas a luz – Zamir apontou para o raio luminoso que penetrava do teto.

- Alguém fez esse buraco – comentou Grammal, que conhecia bem o trabalho em pedra, pois já tinha escavado minas nos seus tempos de escravo – Não foi resultado de um desabamento.

- É claro que foi calculado – retrucou Zamir, impaciente.

- E o que isso tem de mais? – perguntou Naga. Era um guardião, hábil na vida selvagem, mas conhecia pouco da civilização e de sua complexa engenharia. Templos, castelos e câmaras secretas eram um mistério para ele.

- A luz às vezes é usada para acionar mecanismos, como armadilhas – esclareceu Ares - Já vi alguns desse tipo nos túneis de Mir Shans.

O cavaleiro observou o chão cautelosamente e depois teve uma idéia.

- Grammal, ajude-me a subir em uma dessas colunas. De um ponto mais alto poderei observar melhor o piso da sala...

Mas, quando disse isso, virou o rosto e viu que o próprio Grammal já havia trepado numa laje de pedra. Fora criado nos montanhas, onde os homens precisavam aprender a escalar e a subir em qualquer coisa que fosse. - O que vê daí de cima? – aproveitou Ares. Grammal era mesmo o melhor para aquela tarefa. Seus olhos de orc eram adaptados para enxergar na escuridão, e ele conseguiria decifrar detalhes mesmo naquela meia luz. O bárbaro grandalhão ficou calado um instante, enquanto fitava o chão.

- Tem algumas linhas marcadas na pedra, como desenhos.

- Que tipos de desenhos? – perguntou Zamir, preocupado.

- Parecem mais inscrições...

- Não as leia! – gritou o bruxo, histérico. O semi-orc achou engraçado o nervosismo do companheiro.

- Não sei se você se lembra, mas eu não sei ler – avisou, indiferente – E mesmo que soubesse, qual seria o problema em...

- BAKU, BAKU, BASAN! – berrou uma voz eufórica, sobre outra coluna. Era Milo Pés-Ligeiros, o hobbit, que havia ficado para trás em certo ponto da caminhada. Como era pequeno e esguio, ninguém o vira chegando, até ele surgir ali, quase como um passe de mágica – Eu li, eu li – repetiu, contente por ter dado a resposta – Acho que são palavras mágicas. Meu pai tinha um livro que contava sobre elas, acho...

- Essa não... – disse Alana, abaixando a cabeça. A expressão de Zamir não era muito diferente.

- O que foi, pessoal? Fiz alguma coisa errada? – E quando ele disse isso, toda a câmara começou a tremer.

Ares desceu o visor do elmo, sacou a espada e deu a ordem de combate.

- Espalhem-se!

- Mas o que está acontecendo? – Milo continuava sem entender nada.

- Eram mesmo palavras mágicas, Milo – disse Alana - Que ativam um feitiço.

- Feitiço, que feitiço? É coisa ruim? Se for, desculpem...

- Desça já daí! – gritou o cavaleiro – Grammal, para o fundo da sala. Naga, prepare o seu arco.

“Baku Baku Basan” era um tipo de gatilho místico, que acionava uma armadilha. Mas não era uma armadilha comum. As palavras iniciaram um encantamento de invocação, que traria àquele plano um guardião diabólico.

Então, diante de todos, a mágica fez efeito.A escuridão da câmara começou a se mover e a convergir para um ponto central. Era como se o breu se solidificasse em uma única forma humanóide, com braços, pernas e chifres. De repente, a tenebrosidade endureceu tal qual rocha vulcânica, e dela surgiu um demônio, mistura de negritude e fogo! Tinha três metros de altura, chifres envergados e rosto semelhante ao dos touros, embora fosse impossível distinguir suas exatas feições.

Quando a criatura deu um passo à frente, brandindo um machado flamejante, o aposento sacudiu com sua pegada. A pata era do tamanho de uma cabeça humana, tinha cascos negros e duas ferraduras em brasa.

- Um demônio de fogo e trevas – reconheceu Ares, pronto para lançar a primeira investida.

- Ao combate! – berrou o impulsivo Grammal, enquanto Zamir e Alana preparavam seus feitiços.

Recuado, Milo buscou sua faca e tentou raciocinar qual seria a melhor maneira de ajudar, mas ainda estava tímido por ter posto os amigos naquela confusão.

- Gente, foi sem querer – disse o hobbit, baixinho, mas ninguém mais tinha ouvidos para escutar.

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Continua no próximo capítulo

10 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

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  2. Esse hobbit é uma fanfarrão, abriu a boca na hora errada, vou acabar de ler os outros capítulos em casa, aqui no trampo tá osso.

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  3. Galera, Hyperfantasia é apenas um exercício enquanto não começo um outro projeto grande.

    Vcs vão ver coisas muito semelhantes a outras histórias (Tolkien, Conan). É de propósito. É um exercicio mesmo. Por isso, fiquem à vontade para criticar o quanto quiserem.

    Valeu por prestigiarem :-)

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  4. Gosto da apresentação de demônios/monstros que utilizam do elemnto fogo. É sempre impactante quando esse elemento é usado, principalmente contra os personagens principais.

    Está bem legal =)

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  5. Haha!
    Há um Milo no meu grupo de Forgotten Realms (D&D 3.5/Pathfinder) que também é um hobbit/halfling e, como não podia deixar de ser, ladino.
    De onde veio a inspiração pro nome?
    Gostei do clima Sword & Sorcery da aventura. Adoro Conan e Lankhmar. Além do mais, é o gênero que eu gostaria de escrever.
    Falando nisso, obrigado pela dica de livro que você deu num dos episódios do Nerdcast. Meu exemplar de "A Jornada do Escritor" acabou de chegar aqui em casa! E parece ser muito bom.

    Abraços! Ganhou mais um leitor hoje!

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  6. Eu penso que você devia levar esse projeto adiante, é realmente muito bom ver seres humanos salvando a terra :P gosto bastante do seu modo de escrever é uma verdadeira inspiração.

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  7. Muito Show fico caçando as ações do Eduardo Spohr na net kkkkk

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